Casarão de Apipucos
Mesmo tendo morado em Pernambuco por um longo período, eu nunca havia visitado o casarão de Apipucos, na Rua 17 de Agosto. Eu me recordo de ter passado várias vezes em frente ao muro cor-de-rosa, que hoje se encontra desmoronando por um lado, mas não havia subido os degraus da bela casa. Em recente visita à cidade de Recife, descobri a casa de Freire, situada no alto, cercada por uma área verde, repleta de mangueiras e de muitas curiosidades. Freire, "um regionalista", na descrição do guia, valorizava a herança da cultura de engenho e, por isso, comprou a casa, antes parte do Engenho Dois Irmãos e que ele não tencionava deixar como herança.
Ao entrar no casarão pela porta da frente, vê-se, de lado a lado da sala, várias prateleiras cheias de papéis amarelados e de livros. Acima desses móveis, há pinturas dos avós de Freire, trajados à moda do século 19. Na sala de jantar também são os móveis pesados, escuros, de jacarandá, que deixam a impressão mais forte de se estar em uma casa de engenho. De um lado e outro desse espaço, há também azulejos trazidos por Freire de uma igreja em Portugal. Em um móvel, à esquerda, várias bebidas e uma garrafa pequena com um rótulo, no qual se lê "conhaque de pitanga", uma receita do escritor, que gostava muito de fazer experimentos culinários e que a passou ao filho, que com ela morreu.
Na biblioteca de Freire, mais papéis amarelados, e o susto do boneco-imitação de Freire, sentado na poltrona onde o escritor costumava sentar. É uma pena que não seja possível visitar a cozinha, isolada por um fio, na qual vê-se apenas um armário singelo, um espaço pequeno, onde custa-se acreditar que se pudesse desenvolver a rica culinária da região ou preparar o tão apreciado conhaque de pitanga. Na subida para o primeiro andar, um quadro de Dom Pedro Segundo, de origem desconhecida. Os quartos são modestos e, talvez por isso, apresentem tanto à imaginação.
Freire gostava mesmo, de acordo com o guia, de passar tempo sentado no terraço onde há uma mesa de azulejos contendo brasões das províncias do Brasil, aparentemente um presente da família real. Desse terraço, vê-se um pequeno recorte de terra no meio do quintal cimentado onde havia um conjunto do que pareciam ser pedrinhas brancas arredondadas. Informaram-nos que tratava-se, de fato, de ovos de jabuti — os jabutis de Freire. Havia também uma bandeja com frutas picadas no chão, mas eu não consegui ver os jabutis. Esses são animais que despertam a curiosidade, não só pela longevidade, mas também por serem terrestres, apesar de tão parecidos às tartarugas. Os jabutis podem chegar aos cem anos. Freire morreu em 1987 e, se aqueles jabutis estavam mesmo por lá à época, imagino que já devam ter quase a idade limite para esses animais. Talvez estivessem por perto enquanto Freire caminhava pelo quintal, quem sabe pensando em voz alta.
Um pouco mais adiante, em uma transversal da 17 de Agosto, à altura do Poço da Panela, onde há outros belos casarões do século 19 e início do século 20, morava um outro "Mestre" que adotou o Recife e que por ele foi adotado, Ariano Suassuna. Dizem que a casa de Ariano é, de fato, uma galeria de arte, e aguarda-se a época em que será possível visitá-la para ver além das decorações nos muros e nos jardins nos quais o autor costumava gravar seu quadro de "causos". A morte de Ariano causou uma comoção interessante na cidade. Depois da Globo-lização de "O auto da compadecida", não há quem desconheça Chicó e João Grilo, ou quem não possa citar o "não sei, só sei que foi assim" que estampava os jornais em homenagens póstumas ao escritor.
No noticiário, uma mulher chorando afirmava para um jornalista que "não sabia como explicar, mas que ele era como um pai" para ela — talvez aqui um exemplo da busca pelo pai, resquício do nosso sebastianismo herdado dos portugueses. Resta saber se o povo reconhece que Ariano era uma figura tão controversa, e, se reconhecesse, se isso faria alguma diferença. Em março, o Galo da Madrugada homenageava Ariano e eu acompanhava o desfile pela televisão. Avistando Seu Jorge ao lado de Marcelo D2, o repórter aproximou-se dos dois e perguntou se eles conheciam "o Mestre Ariano". Seu Jorge disse que não havia tido a oportunidade de conhecer "uma das maiores pessoas brasileiras", e o repórter decidiu apresentá-los. Em um gesto muito espontâneo, a mão de Seu Jorge enlaçou a mão de Ariano e, beijando-a, o cantor disse, "a sua benção, Seu Ariano". "Deus lhe abençoe", foi a resposta. Ariano, homenageado e simpático, acrescentou, então, dedo em riste — "Seu, não. Ariano."
Consigo enxergar uma certa ironia no episódio. O pedido de benção do artista negro, ex-menino pobre, ao escritor nordestino, um eterno menino rico de Taperoá, pareceu-me carregado de simbolismos. Fiquei pensando que Ariano, por um momento, deve ter imaginado ter acordado no século 19. Quando chegou a sua vez de ser apresentado ao escritor, Marcelo D2 disse "não ter palavras". E eu acreditei.
Gabriel Garcia Márquez escreveu que quando retornava à casa onde havia crescido, tinha sempre a impressão de que tudo parecia mais velho e menor. Quando li isso pela primeira vez, eu achei que identificava exatamente como eu me sentia ao visitar a minha cidade. Entretanto, pode-se afirmar também que Recife é um desses lugares onde o novo e o velho misturam-se e se apresentam bem próximos. Tome-se como exemplo as atuais tentativas de modernizar a cidade, com novas estradas, o estádio para a Copa de 2014, ou o transporte público. Usar o transporte público na cidade é um exercício para gente bem jovem.
Com o novo poder aquisitivo da classe C criou-se uma situação caótica no trânsito de várias cidades do Brasil. Se andar de ônibus é uma aventura em Recife, de carro, a situação não deixa de proporcionar emoções. Não posso recordar quantas vezes levei as mãos aos olhos e me encolhi no meu assento, em antecipação ao que parecia ser uma batida iminente, quando acompanhava uma amiga dirigindo pela cidade.
Depois dessas aventuras pela cidade, confesso ter me sentido um tanto desesperançosa, mas cada vez mais certa de que aquilo de que o povo mais precisa em termos de investimento público é educação de qualidade. Esperando um ônibus na Benfica, eu testemunhei o acidente mais evitável que posso descrever. Um carro verde saía do estacionamento de um supermercado e fazia moção de quem pretendia cruzar a via de mão dupla, passando em frente de um ônibus que trafegava no sentido contrário — e, claro, uma batida estrondosa foi o que se viu e ouviu. Um homem na parada quase que imediatamente declarou, "só podia ser mulher". Mais um suspiro de desesperança.
Voltando à educação, hoje o poder aquisitivo facilita que se chegue aos diplomas, que me parecem ter se transformado em uma espécie de sonho de consumo também. Com essa "commodificação" do ensino, o que preocupa é a qualidade do que é oferecido. Isso me faz lembrar de um texto de Marilena Chauí, no qual a autora discute o papel da universidade enquanto organização e/ou empresa. De todos os modos, há também a necessidade de um nível básico de informação e educação — fundamental para qualquer sociedade que queira progredir e que vise a promover a dignidade de seus cidadãos. A importância disso se destaca tanto mais porque, afinal, certos hábitos, como alguns animais — os jabutis de Freire —, demoram para morrer.
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