Heartbreak
Hoje eu li em um texto na seção de Opinião do New York Times que "Where heartbreak is, beauty intrudes. Wondrously" (Philip Larkin). Era um texto sobre a vida de quem já tem uma certa idade e me chamou à atenção por eu já estar para além do tempo em que se diz que há muito mais tempo para viver, ou que se é tão jovem, ou que ainda se está "na flor da idade." Tudo isso são frases feitas que eu já ouvi e que sou culpada também de dizer às muitas pessoas jovens com as quais tenho a oportunidade (ou o privilégio) de interagir.
Eu gosto de ser professora e de ter pessoas com quem e para quem possa compartilhar o tanto de informações que acumulei graças ao que faço profissionalmente. Eu leio muito e sinto vontade de dizer aos outros sobre o que aprendi. Isso é tanto uma benção como uma maldição, para usar de uma imagem religiosa. O saber liberta mesmo e também amplia os horizontes, permitindo que possamos viver outras vidas, imaginar outros tempos, que saibamos a diferença entre fato e fato alternativo (ou mentira). Ao mesmo tempo, às vezes o que se sabe pode não conduzir às interações mais interessantes, se você estiver no meio errado. Nesse caso, o que você sabe pode fazer de si uma pessoa insuportável, com quem muito poucos queiram interagir.
De todos os modos, eu comecei escrevendo aqui sobre o texto de opinião de Roger Rosenblatt, no qual ele dava algumas sugestões do que se pode/não se deve fazer quando já se atingiu uma certa idade. E um dos pontos que o autor citou me fez pausar. Sabe quando você está lendo um texto e atinge um ponto em que se identifica com o que foi dito, ou a declaração é tão intrigante que faz você pausar para pensar mais naquilo? Pronto. Foi isso que me aconteceu hoje ao ler esse texto. O autor sugere (ou recomenda mesmo) que nós abracemos aquilo que fizemos de errado. Mas abracemos mesmo. Ele então cita o texto do início, de acordo com o qual "Onde há desilusão (ou dor), a beleza invade (ou irrompe)." Eu fiquei pensando nos modos como a beleza surge quando há dor e desilusão profunda.
Talvez, eu pensei, o próprio momento de refletir nas perdas e na dor que causam sejam em si mesmo uma maneira de experimentar o belo. Sobretudo porque, hoje, nas nossas sociedades tão aceleradas, nas quais os próprios modos de amar, de mostrar sentimento, de se ligar a alguém, de manter relacionamentos e de terminá-los são tão superficiais e quebradiços, viver a tensão da perda é de fato especial. Esse modo de expressar a decepção e a perda, principalmente afetiva, no inglês, que representa um coração quebrado ao meio, partido, ilustra como sentir é especial e difícil.
Meu marido costumava dizer que meu pai havia ficado de coração partido quando eu me mudei para os Estados Unidos e eu acho que só comecei a entender o que ele queria dizer com o tempo. É que, por um longo período, apesar de eu saber e ter ouvido a expressão em referência a desilusões amorosas, eu não havia me dado conta de que "to be broken-hearted" significa estar em um estado de sofrimento profundo, a dor latente pela perda, seja de um ente querido que morreu, seja de alguém que se amava e que causou mal de propósito ou inadvertidamente.
Há psiquiatras que definem o estado de estar apaixonado como uma doença e uma doença mental. Não é à toa que não se pode parar de pensar no outro, ou que sensações físicas possam ser associadas à experiência de se estar interessado profundamente, apaixonado mesmo, por alguém. Eu li uma história no mesmo livro que descrevia o amor como uma doença, que o autor havia iniciado tratamento com uma paciente e que, com o passar do tempo, esta mulher, que era casada, desenvolveu pelo médico uma paixonite tão aguda que ela não conseguia mais deixar de procurá-lo. O que é pior, a mulher começou a acreditar, sem qualquer evidência, que o médico gostava dela da mesma maneira. Esse episódio se torna a base para a discussão central do livro acerca da natureza do amor em nossas vidas.
Quem nunca se apaixonou? Quem nunca nutriu por outro aquele sentimento quase sem explicação que nos faz querer ver o outro com frequência, que provoca reações físicas das chamadas borboletas no estômago, de ficar trêmulo/a ao falar ou ver o outro, ou quando se antecipa um encontro, uma conversa, qualquer retorno. Talvez sentir que se é capaz de viver isso seja uma das coisas mais bonitas que temos a capacidade de experimentar como seres humanos. Talvez seja isso, em parte, que nos torne humanos, essa capacidade de amar profundamente, a ponto de às vezes se idealizar tanto o outro que acabamos por nos tornar presas fáceis para quem só quer se divertir, ou explorar nossos limites. É o sentimento que tanto nos faz sensíveis e frágeis como estúpidos. Talvez estúpidos porque frágeis. E eu fico pensando em por que a citação no texto de Rosenblatt me fez pausar. Talvez porque quase não faça sentido que aquilo que dói tanto possa valer a pena, a ponto de inspirar o autor a dizer que "é em um coração partido que se irrompe a beleza."
Tudo ficou mais claro no final do texto quando o autor, citando agora um poeta, afirma que "What will survive of us is love." Agora sim, tudo mais claro, pois isso confirma aquilo que ouvimos sempre, independente da idade que tenhamos ou da geração a que pertençamos. Todo mundo já deve ter ouvido que, quando envelhecemos, ou quando nos aproximamos da morte, o que ganha cada vez mais importância é o amor dos nossos familiares e amigos.
Um pouco antes de o meu pai falecer, em uma das minhas últimas visitas, eu estava acordada no quarto, sob o mosquiteiro, criando coragem para me levantar de manhã, ainda um pouco escuro, e ele estava sentado no sofá. Eu ouvi o meu pai dizer o que viria a ser uma das declarações mais memoráveis desta última fase da vida dele (ou de nossas vidas juntos): "A melhor coisa que eu fiz foi ter me casado e ter tido meus filhos e meus netos." É isso: o que sobrevive a todos nós, ou o que sobrevive em nós, é o amor que sentimos, que demonstramos, que espalhamos. Isso fica.
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