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Meu pai

Eu me lembro de ter ouvido esta história pelo menos duas vezes, mas na última, eu lembro que estávamos em um Uber e meu pai estava sentado no lado do passageiro, na frente, e eu atrás. Ele contava exatamente na altura do Hospital Barão de Lucena, onde eu nasci, que, quando criança o avô materno dele (a quem ele chamava de vovô), costumava levar os netos para nadar no rio Capibaribe, na Várzea.

Meu pai disse que eles caminhavam por um mato alto e que vovô, um velhinho muito magrinho, apanhava tiras de um mato que chocalha como um maracá e lhes dava, sorrindo (he he he). Todo mundo tirava a roupa e ia nadar no rio. Meu pai contava que eles também colhiam frutas no Golfe Country Clube, o clube de Golfe da Avenida Caxangá, onde hoje se pode ver muitas capivaras, tomando banho de sol e pastando.

Quando eu era criança, o golfo (como nós chamávamos aquele lugar estranho, onde se praticava uma atividade ainda mais estranha) não tinha capivaras. Pelo menos eu não me lembro, mas depois da pandemia, o que mais se via nas cidades brasileiras, inclusive no Recife, era a multiplicação das capivaras. Capibaribe, a propósito, é palavra indígena que referencia a presença dos roedores dóceis (até você descobrir que elas também mordem e/ou atacam).

Enfim, eu achava a história do banho no rio, conduzido por um homem magrinho, velhinho e negro (de ancestrais certamente escravizados), fascinante e havia me comprometido a escrever a respeito, sem nunca ter tido a coragem, ou iniciativa. A minha intenção era gravar meu pai contando esta história e algumas outras de infância, mas não deu tempo. Ou eu esperei demais.

Quando meu pai descobriu que tinha câncer, tudo aconteceu muito rapidamente, mesmo que ele tenha lutado, como lutou. Eu confesso que também não entendia muito bem o que se queria dizer com "lutar" quando se falava em câncer, mas descobri logo. O meu pai foi diagnosticado com a doença em fevereiro de 2024. Eu soube que deveria ir para casa o quanto antes, pois ele só teria até setembro ou outubro. Viajei em maio e estive com o meu pai durante o seu aniversário de 75 anos. Ele estava confiante ("O médico me disse que há remédio para a minha doença"). Do que não sabíamos era que o remédio que é usado para curar pode ter efeitos colaterais tão graves, a ponto de causar a morte do paciente. O médico recomendou que meu pai tomasse um remédio. Meu pai era um homem que amava viver.

Ele gostava de receber visitas e de deixá-las à vontade, servindo pratos tradicionais da culinária pernambucana. Na verdade, não se sabe se a comida ou a visita eram o pretexto, mas do que me recordo é que ele organizava reuniões em casa, decidindo o que ia servir. Eu chegaria para visitá-los, era o camarão de coco, o meu preferido. Ficaria em casa muitos dias? Haveria de comer o guaiamum ou o caranguejo, de coco também, sentada diante dele, na mesa da sala de jantar, quebrando patinhas copiosamente.

Quando a doença dele avançou muito, era difícil ficar perto dele e vê-lo sofrer tanto. Em uma das minhas últimas visitas, eu comia o tal guaiamum, no mesmo lugar de sempre, do outro lado da mesa, de fronte para o meu pai. Ele me descrevia o que sentia e eu perguntei como era a dor. Ele disse algo que me afetou imediata e profundamente: "Eu tenho sofrido tanto. Só eu e Deus sabemos o quanto eu tenho sofrido." A frase talvez pareça comum, mas eu me lembro de ter sentido profunda empatia pelo meu pai, como se por aquela linha sua eu tivesse conseguido enxergar um pouco do que seria conviver com uma doença tão agressiva.

A regra na minha casa era não chorar na frente do meu pai para não conferir a uma situação já tão grave um ar de miséria e tragédia. Afinal, é difícil lutar quando já se antecipa um resultado negativo. Mas dessa vez eu não consegui conter a lágrima que escorreu do lado do meu olho direito. Eu fiquei paralisada, segurando a pata fina do guaiamum que nunca me pareceu pior. E olha que amo (ou amava?) o caranguejo, que aprendi a comer com o meu pai, naquela casa de onde só saí aos 27 anos. Eu fiz de conta que não havia lágrima, que o guaiamum estava ótimo, enquanto a lágrima insistia em cair indiscreta do lado do meu rosto. Meu pai deve ter visto, porque ele se levantou da mesa e saiu, sem me dizer mais nada.

Uma vez, uma pessoa com quem eu trabalho que havia perdido o pai, contou a mim que estava lavando a louça com o pai quando se deu conta de quanto o amava e de ter pensado que faria qualquer coisa para que ele se recuperasse do mal que tinha. Acho interessante que quando um evento dessas proporções acontece, nós começamos a entender melhor o que já havíamos ouvido sobre morte, sobre perdas e sobre ausências constantes. Ninguém pode realmente explicar o que é ou como se sente isso. É preciso viver algo assim para entendê-lo realmente.

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