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Homenagem à Dra. Cléa Rameh

Faleceu em novembro de 2013, aos 86 anos, a Dra. Cléa Abdon Salomão Rameh, que foi diretora do programa de Estudos Portugueses de Georgetown University, Washington, DC, professora, pesquisadora, e uma de facto embaixadora do Brasil e da sua cultura, além de ter exercido os papéis de chefe, mentora e amiga para muitos de nós hoje envolvidos com o ensino de Língua Portuguesa nos Estados Unidos. As contribuições da Dra. Cléa Rameh foram muitas para o ensino de português como língua estrangeira, mas o impacto que ela teve na vida profissional e pessoal de muitas pessoas é também digno de nota. Esta homenagem, portanto, cobrirá diferentes facetas da "identidade" da Dra. Cléa Rameh.

À Dra. Cléa Rameh cabe o mérito por uma longa história de dedicação profissional ao ensino e à divulgação da Língua e Cultura Luso-Brasileiras, tendo estudado e ministrado aulas em Georgetown University desde a década de 60. Possuidora de uma voz firme, Dona Cléa, como era conhecida por amigos e alunos, empenhou-se seriamente pelo desenvolvimento da pesquisa e do ensino de português nos Estados Unidos; e insistia na sua independência do espanhol, destacando a necessidade de ensinar-se a língua, enfatizando suas particularidades (mesmo singularidade) e importância no contexto acadêmico americano.

Dra. Cléa Rameh foi uma estudante de Robert Lado, um dos pioneiros no ensino da Linguística Contrastiva, uma subárea da Linguística Aplicada, e que se concentrava sobretudo no ensino das línguas modernas. Em sua tese de mestrado (Georgetown University, 1962), orientada por Robert Lado e titulada Contrastive Analysis of English and Portuguese, Dra. Cléa Rameh desenvolveu um estudo das particularidades fonêmicas do português, contrastadas com o inglês (a tese de doutorado, Toward a Computarized Syntactic Analysis of Portuguese, viria oito anos mais tarde, em 1970). O estudo teve como base o padrão de entonação de um falante "para determinar problemas no ensino de uma das duas línguas para falantes nativos da outra" (p.1). Detalhada e precisa, a análise, apesar de curta, parece ter sido a base para o desenvolvimento do livro que serviu como ferramenta fundamental para o ensino de português para falantes de inglês por mais de quatro décadas nos Estados Unidos — Português Contemporâneo, volumes 1 e 2, ambos publicados à 6a edição pela Georgetown University Press. O princípio teórico sobre o qual o livro se baseia é que a aprendizagem da língua implica também na "internalização de complexos mecanismos fonológicos, morfológicos e sintáticos" (Intro., v.). Note-se que, então, a ênfase era na aquisição da habilidade de "internalizar" para depois "reproduzir" padrões linguísticos, antes de se passar à fase de aquisição da consciência cultural, o elemento indissociável das abordagens modernas para o estudo de uma língua estrangeira.

As atividades do livro consistiam de uma sequência expositiva dos padrões entonacionais, acompanhados por gráficos detalhados, subscritos com as transcrições fonéticas de estruturas frasais (sintagmas). O primeiro volume está organizado em vinte e dois capítulos, compreendendo desde "Os Cumprimentos", até o desempenho de atividades diárias, tais como "A Hora do Almoço", "Na feira Livre", e "A Bandeira Brasileira". As edições mais recentes são também acompanhadas por material de áudio relativo às lições. Português Contemporâneo foi material pioneiro para o ensino de português não só nos Estados Unidos, mas também em outras partes do mundo, e ainda hoje recebe comentários laudatórios por disponibilizar recursos básicos para a aquisição dos sons ou padrões entonacionais do português. Dona Cléa comentava que o livro havia sido usado em países tão longínquos quanto o Japão e, alguns anos atrás, quando de uma visita que lhe fiz, ela mencionou estar um pouco surpresa pelo interesse no seu livro em diferentes partes do mundo, mesmo diante do surgimento de outras inovadoras metodologias de ensino de línguas estrangeiras.

Dona Cléa era metódica e muito organizada, como eram também as suas aulas. Tendo tido a oportunidade de trabalhar com ela, implementando um curso de português básico intensivo em Georgetown University, cujo material base foi Português Contemporâneo 1, eu pude testemunhar o rigor e a atenção a detalhes que marcavam tudo o que Dona Cléa fazia. Ela também desenvolveu outros projetos de pesquisa, dentre os quais um conduzido com uma Bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal (1980-1981), e um importante projeto que visava a formação de professores brasileiros em Linguística Aplicada nos Estados Unidos. Este último projeto figura como uma das grandes contribuições da Dra. Cléa Rameh, deixando, sem dúvida, várias ramificações e, desta forma, tendo um impacto na divulgação e ensino da Língua Portuguesa para além dos Estados Unidos.

Para os de nós que tivemos o privilégio de trabalhar e conviver com Dona Cléa também é impossível não destacar sua imensa e indisputável dedicação ao ensino da Língua Portuguesa, ao programa de Georgetown University, aos alunos, aos amigos e à família (sobre a qual ela sempre fazia menções afetuosas). Ouvinte incomparável, ela aplicava-se a qualquer solicitação de ajuda (não havia teses ou manuscritos que fossem longos demais, Dona Cléa atendia às solicitações de leitura e editava com apuro e esmero o trabalho dos amigos). Ela escutava com a atenção de um bom pesquisador e, analítica, fazia cuidadosamente inúmeras perguntas antes de emitir sua opinião. Em muitas situações, já se tinha uma boa ideia da sua resposta, antes mesmo que ela a emitisse, considerando as perguntas que fazia. Dona Cléa possuía uma ética profissional inigualável e costumava dizer, diante das ansiedades profissionais de outros, que era necessário "continuar trabalhando" para ver os resultados, mesmo que "bem adiante".

Dona Cléa nasceu em Recife, Pernambuco, e, à minha pergunta sobre onde ela havia morado na cidade (também a minha de origem), respondeu que lembrava de ver, quando criança, as cápsulas vazias das balas que os soldados do forte próximo ao seu sobrado usavam para praticar. Após a aposentadoria, Dona Cléa passou a dividir seu tempo entre Washington, DC e São Paulo, saindo quando o frio do inverno iniciava e voltando com os primeiros ares menos gélidos da primavera setentrional.

A notícia da morte de Dona Cléa foi um tanto inesperada. Duas semanas antes de falecer, na última conversa telefônica que tivemos, eu obtive a seguinte resposta ao perguntar a Dona Cléa como ela estava: "vai-se indo". Ora, para quem a conhecia, esta resposta fazia muito sentido, pois indicava que, mesmo tendo razões, ela não reclamaria. E a vida seguia, "ia-se". Apesar da idade, Dona Cléa era senhora de um incrível vigor e de uma imensa alegria de viver; gostava muito de rir, de ir ao teatro, de sair para jantar ou almoçar com os amigos, que também recebia na sua casa com frequência, e de participar dos eventos no campus de Georgetown University, praticamente uma extensão do seu lar. No bairro de Georgetown, Dona Cléa parecia sentir-se em casa, à vontade. Muitas caminhadas pela Rua M eram marcadas pelos cumprimentos dos funcionários ou donos dos estabelecimentos locais, a quem Dona Cléa respondia com bom humor e com a familiaridade de quem era certamente uma face conhecida na vizinhança.

Visitar a casa de Dona Cléa era como visitar um pedacinho do Brasil em Washington, DC. Entre as lembranças, ficam as do pequeno jardim florido no quintal do sobradinho em Georgetown, com o pé de tomate carregado de frutos no verão e que ela gostava de nos mostrar, além do sabor do cafezinho (tinha que ser brasileiro e passado na cafeteira italiana) que ela preparava metodicamente. Dona Cléa era uma pessoa que preenchia muitas lacunas na vida migrante de muitos de nós, e além do papel profissional de chefe, professora e mentora, ela era também, como uma colega nossa bem disse, "uma espécie de avó de todos nós". Por estas razões, a memória que dela fica não é apenas a de uma talentosa e dedicada profissional, cujas contribuições repercutirão por muito tempo, nos "filhos e filhas" acadêmicos que ela ajudou a criar, mas também a de uma grande figura amiga, bastante querida, e de quem já se sente muita saudade.

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