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José Saramago: Linguagem, leitura e envolvimento

No documentário "Línguas, vidas em português", José Saramago, ao tratar do legado histórico da língua portuguesa, que se encontra tanto "nas bibliotecas" como nos "arquivos", afirma que poderíamos passar "a vida inteira mergulhados na língua portuguesa" se tentássemos estudar todo este material. Esta declaração de Saramago, a ideia de "mergulhar-se na língua", remete talvez à própria relação do autor com a língua portuguesa e à natureza da sua contribuição a esta, à forma como emprega a linguagem em suas obras, uma relação que parece refletir cuidadoso trabalho, quase como o de um escultor, mas que ainda parece natural, original e autêntica.

O uso da linguagem em Saramago é um pretexto apropriado para se tentar explicar o que ocorre com o simulacro que acaba por ser a própria narração. Parágrafos longos, pontuação indiferente, a linguagem em Saramago é um desafio aos leitores: desafia tanto o nosso conhecer das "coisas" como achamos que são — pois Saramago quebra com as nossas expectativas ao explorar a máxima possibilidade na sua (re)criação do caos — como o nosso saber das convenções que marcam o encontro entre língua e meio escrito. Se acostumados a receber narrativas lineares, pontuadas por convenções tradicionais, somos desafiados também pela forma como o texto é organizado para nos contar a estória.

A inconvencionalidade tanto estilística como temática desperta até a nossa insegurança enquanto leitores. Se toda leitura é um processo de (re)descobrimento de si mesmo e do universo (re)criado pelo autor, a leitura de Saramago nos desafia ao pôr diante de nós uma realidade por vezes caótica, e até assustadora, que nos desestabiliza por fazer-nos pensar no impensável ou não pensado. A criatividade de Saramago, pautada por uma linguagem rica em imagens e detalhes, é eficaz em criar envolvimento. Saramago cria com as palavras, como o criam outros escritores, mas nos envolve com elas antes de nos envolver com a narrativa. Não é só o universo onde a cegueira é contagiosa, ou as pessoas param de morrer, e observamos as subsequentes manifestações da natureza humana em face a estas quebras com o esperado, mas é também o desafio à nossa própria identidade como leitores.

A linguagem, em Saramago, às vezes avança em sequências de páginas em parágrafos cuja intensidade parece refletir a própria intensidade do universo narrativo. Ricos em detalhes, os diálogos são, ao mesmo tempo, o recurso para imbuir os personagens de sua riqueza e profundidade e o veículo através do qual envolvemo-nos com eles e com a narração. O dizer é significativo nos personagens em Saramago, à medida em que a criação de sentido se dá quando vozes são ouvidas em diálogos longos, cujo sentido é explorado, e tem-se a impressão de que negociado on line, mesmo no âmbito da interação que o autor cria.

Em "A viagem do elefante", por exemplo, encontramos uma sequência em que o autor descreve uma discussão hipotética entre leitores e narrador sobre a origem de termos para medir distância, "o estádio, a milha, e a légua" (p. 38). "Ora, ora, léguas toda a gente sabe o que são, dirão com o inevitável sorriso de ironia fácil os contemporâneos que nos couberam em sorte. A melhor resposta que podemos dar-lhes é a seguinte, Sim toda a gente o sabe na época em que viveu, mas só e unicamente na época em que viveu." À conclusão desta sequência, o autor retoma a narrativa por supor a reação do leitor ao afirmar "E como se entendiam eles, perguntará o leitor curioso e amante do saber, E como nos entenderemos nós, pergunta, fugindo à resposta, quem à conversação trouxe este assunto de pesos e medidas" (p. 39). Este trocar rápido de vozes, a simulação de uma interação hipotética entre leitor e narrador-autor, é exemplo de apenas um dos recursos que contribuem para o nosso envolvimento. A viagem mal começou e já estamos a estas alturas da narrativa envolvidos em uma discussão para a qual somos chamados — ou intimados — pelo autor. Envolvimento assim não é casual, mas inevitável, e responde a uma habilidade de criar com, e manipular, a linguagem no mesmo espaço em que nós talvez pensemos ter controle.

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