2024
Há anos que ficam marcados nas nossas memórias por eventos importantes ou que transformaram nossas vidas ou o modo de sermos. O 11 de setembro, por exemplo, foi um divisor de águas na história contemporânea, como foi 2020, o ano oficial da pandemia. Muito mudou depois ou a partir desses anos, considerando a magnitude destes eventos. Minha filha, por exemplo, fez a conclusão de 5ª série numa cerimônia em um carro, como fizeram muitos outros estudantes do ensino médio. Alguns outros nem tiveram uma cerimônia de formatura. Sem falar dos milhões de pessoas que provavelmente não puderam se despedir dos seus entes queridos, observando os ritos de velório e enterro, dada a seriedade da Covid-19.
Um ano que eu considero ter sido muito difícil foi 2024, ano repleto de perdas. Este foi o ano em que meu pai foi diagnosticado com câncer no fígado e que sentimos um medo enorme de perdê-lo. Meu pai vinha se queixando de incômodos digestivos e perdia muito peso, ficando cada vez mais magro. Quando ele finalmente conseguiu fazer uma ultrassonografia, verificou-se que tinha alguns nódulos no fígado e na pontinha do rim.
Eu fiquei tão preocupada e liguei para o meu tio médico, contando o que sabia do caso e ele foi ver o meu pai no mesmo dia. Isso foi muito bom porque meu pai ficou internado praticamente uma semana inteira, graças aos contatos do meu tio, para fazer testes e verificar do que se tratava. Quando o resultado confirmou que se tratava mesmo de câncer, meu tio me avisou por telefone. Eu levei um susto enorme e nem sabia exatamente como reagir, o que fazer. Meu tio disse que eu deveria fazer planos para visitar o meu pai, pois ele não teria muitos meses mais de vida. Estávamos em fevereiro e meu tio me disse que meu pai viveria provavelmente até setembro.
Quando eu telefonei para falar com o meu pai, ele não sabia que eu sabia e ficou muito emocionado me contando. Ele chorou, mas me disse que o médico havia dito a ele que "para a doença que eu tenho, tem remédio." Meu pai amava viver e se segurava em qualquer pontinha de esperança. Eu gostava de ouvi-lo tão otimista e acreditava nele.
A partir desse diagnóstico as nossas vidas todas foram transformadas. Para mim, que moro tão distante, iniciavam-se os planos para as visitas que eu começaria a fazer em maio, mês do aniversário do meu pai. Eu terminei as aulas e fui para o Brasil, encontrando meu pai no aeroporto, como sempre. Durante toda a doença do meu pai, ele sempre foi me buscar no aeroporto e não gostava da sugestão de não ir. Na última viagem que eu fiz, eu sugeri que ele não fosse me levar e ele respondeu, "deixa eu morrer." Meu pai continuou a tentar manter uma aparência de normalidade até o fim da vida. Meu tio conta que já no hospital e realmente horas antes de morrer, ele disse que quando a morte chegasse, ele iria "lhe dar uma rasteira." Ele tentou viver até o último minuto e fez tudo o que pôde para permanecer vivo.
No nosso último telefonema, ele me contou sobre a recente consulta e sobre uma conversa que teve com uma médica que o havia deixado muito desanimado. Ela explicou ao meu pai que os incômodos, dores, mal-estares pelos quais ele passava estavam todos relacionados à progressão da sua doença, dando a entender que o câncer do meu pai havia se espalhado por outros órgãos. Ela recomendou também que ele reunisse a família, "para me despedir", ele me disse. Eu fiquei em silêncio, ouvindo o meu pai falar sobre o sentimento de morte anunciada que ele tanto havia evitado até então. O meu pai me perguntou quando eu iria visitá-lo e eu mal pude responder. Eu chegaria no dia 8 de março, um pouco mais de um mês dessa conversa, e meu pai queria planejar uma feijoada, reunir toda a família e se despedir. Foi uma das poucas vezes em que o ouvi tão sombrio. Eu não sei se concordo com a ideia de deixar tão claro para um doente que ele se encontra tão perto da morte.
Meu pai dizia que queria morrer em casa e vinha evitando ir para o hospital. Uma vez, quando eu sugeri que ele fosse ao hospital caso não se sentisse bem, ele me disse: "o hospital é para morrer. Eu já sei." Isso aconteceu na quarta-feira (5/2), mas na sexta (6/2), meu pai disse à minha mãe que queria ir ao hospital. Eu fico pensando no tanto que ele estava sofrendo para ter desistido do plano de morrer em casa.
Meu irmão ficou com ele durante a noite. Outras pessoas o viram nos seus últimos momentos e ele faleceu no domingo, 8 de fevereiro de 2026, exatamente um mês antes da minha chegada. Prestando atenção a como este texto iniciou, pode-se ver que meu pai ainda conseguiu sobreviver à doença por dois anos, depois do diagnóstico, um feito extraordinário, de acordo com o meu tio. Só não pôde me esperar, mas eu tenho certeza de que foi porque não conseguiu mesmo.
Mas 2024 foi difícil também por outras perdas e a saída de gente da minha vida que eu pensava que fosse ficar para sempre. Eu nunca entendi completamente como uma pessoa pode se aproximar tanto de outra e depois desaparecer sem dizer uma só palavra sobre por quê. Eu acho uma das violências mais sutis dessa nossa modernidade que a tecnologia tenha permitido que as pessoas soltem seus monstros dessa e de outras formas tão cruéis. Então, eu senti esse medo enorme da perda iminente do meu pai e senti que pessoas que eu havia considerado importantes começavam a me ignorar sem eu ter feito muito. A minha tristeza era tamanha que eu não plantei nem uma florzinha no meu jardim naquela primavera e naquele verão.
Depois que meu pai faleceu, e na medida em que eu me recuperava do meu banzo, já em 2026, eu decidi que encheria meu jardim de flores. Afinal, como eu comecei a me dar conta, meu pai gostava muito de flores e acho que ele iria gostar de ver o meu jardim.
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