A primeira memória
Foi em uma livraria em Salvador que o volume cor de rosa (ou lilás?) me chamou a atenção. Tratava-se de "Infância", de Graciliano Ramos, e depois de ler a informação na orelha do livro, eu nem pensei duas vezes. Comprei-o porque achava que não largaria a leitura. Foi isso que aconteceu. Em "Infância", Graciliano descreve memórias de quando tinha três, quatro, cinco e seis anos e me impressionou que ele guardasse lembranças tão tenras. Imediatamente isso me fez pensar se o contato com os eletrônicos atualmente não reduz nossa capacidade de memorizar e mesmo de armazenar pensamentos e memórias.
Ao mesmo tempo, isso me fez refletir na minha primeira memória de infância, quando eu tinha três anos. É significativo que as nossas lembranças estejam ancoradas tanto nos nossos sentimentos como em objetos ou pessoas específicas. Por exemplo, eu sei que a minha primeira memória é de quando eu tinha três anos porque me lembro do que eu estava usando, um vestido vermelho de crochê do qual eu gostava muito. Eu sei que eu tinha três anos porque o vestido havia sido feito pela minha tia para o meu batismo, quando eu tinha um ano. A minha tia havia então aumentado o tamanho do vestido, que eu usaria até os três anos. Eu confirmei isso recentemente com a minha mãe, quando eu lhe contava que ter uma lembrança de algo que aconteceu quando se tinha três anos seria impossível, ou bem difícil. Assumi que teria uns cinco, e minha mãe confirmou a primeira versão, a dos três anos.
Enfim, meu pai havia chegado em casa na hora do almoço e pedido à minha mãe que nos vestisse porque ele nos levaria para ver o mar. Meu irmão e eu ainda não havíamos visto o mar e, sendo de Recife, isso haveria de mudar mais cedo ou mais tarde. Então, meu pai chegou cedo, disse que nos levaria e fomos de ônibus para Boa Viagem, onde ele trabalhava. Eu me lembro dos dedos longos do meus pai, mexendo no controle da passagem do ar em um ônibus, e depois de ter visto o mar, aquela beleza azul-esverdeada do litoral sul de Pernambuco. Lembro também do grande desapontamento quando aquela água descontrolada bateu nos meus lábios enquanto eu, meio trôpega agarrava nas pernas das calças do meu pai. Eram umas calças azuis, com as pernas muito largas, muito parecidas com o que se vê em "O agente secreto", de Kleber Mendonça Filho. Era a década de 70, o Brasil se encontrava sob uma ditadura, e o meu pai levava a mim e ao meu irmão, em um dia de semana para o trabalho para que víssemos o mar.
Eu sei que comentei sobre a água ser salgada ("A água é salgada, né?") e que isso parece ter sido engraçado porque foi exatamente o que meu pai disse à minha mãe sobre a minha reação quando chegamos em casa. Em alguns contos de "Infância", Graciliano descreve imagens meio fugidias, incertas, em um emaranhado de vozes e pessoas. É quase como um sonho, no qual ouvem-se vozes, mas não se recorda exatamente de tudo o que foi visto, ou veem-se ações aparentemente desconexas, que só fazem sentido depois, com uma boa dose de interpretação. A descrição que ele faz da mudança desde a fazenda para a cidade é repleta de pessoas que aparecem e desaparecem, de vozes, de imagens que, aos poucos, vão fazendo sentido.
A lembrança da primeira vez em que eu vi o mar é também um conjunto de partes meio soltas, com o vestido vermelho de crochê e uma lembrança paralela de que eu sentia vergonha porque o vestido estava ficando curto e a minha calcinha já começava a aparecer. E eu me lembro vividamente do meu pai, dos dedos morenos dele, ajustando o ar-condicionado do ônibus que nos levaria a Boa Viagem, da cor do mar, de o meu pai ter me segurado, enquanto eu sentia dificuldade de me equilibrar, mesmo com a água à altura das pernas do meu pai. Eu só não me lembro do meu irmão. Eu sei que ele estava lá também, mas, na minha memória, eu só vejo a mim e ao meu pai.
Fiquei pensando nessa imagem muito mais agora que o meu pai faleceu. A memória da menina de três anos, segurando nas pernas do pai, usando um vestido vermelho (vermelho, aliás, é a minha cor preferida), sob o céu azul, no mar de Recife, descobrindo que era tanto lindo como salgado, talvez seja uma epígrafe perfeita para entender tanta coisa que viria depois.
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