A última fotografia
Uma vez eu li, e não me recordo exatamente onde, que há certas coisas que são quase impossíveis de se descrever, como o olhar de alguém, por exemplo. O texto ou a pessoa pedia para pensarmos em como se pode descrever aquilo que o olhar de outrem transmite e, pensando nisso retrospectivamente, eu acho que se tratava mesmo de uma interrogação sobre os muitos modos pelos quais podemos ler ou interpretar as intenções ou os pensamentos do outro. Quantas canções em português mencionam o olhar do outro? Em algumas, o olhar "confunde", "fala", "melhora", "diz", "não mente", ou comunica mesmo. Eu me pego refletindo nisso todas as vezes em que observo a última fotografia que tenho do meu pai e agora chegou a minha vez de tentar descrever o que vejo no olhar dele naquela imagem.
Quando o meu pai estava no hospital, a situação dele já era muito delicada. Um dia antes de ele falecer, no sábado de manhã, meu tio me enviou uma mensagem, fazendo uma atualização sobre o estado dele: como havia dormido, o que havia tentado comer, o humor, os diálogos. Eu então pedi a ele que dissesse ao meu pai que eu estava pensando nele e que estava com saudades. Depois, acrescentei um pedido, quase de modo ousado, porque eu o considero um pouco delicado. Eu pedi ao meu tio uma foto do meu pai. Recebi a imagem no meu celular e fiquei contente pela confirmação da presença dele.
Meu pai estava deitado, com o braço direito atrás da cabeça e a mão esquerda sobre o peito, olhando em direção à câmera (que eu gosto de acreditar ter sido em direção a mim). Ele vestia uma camiseta branca, o que ajudava a lhe conferir um tom calmo. E agora vem a parte mais difícil de descrever: o olhar. Os olhos do meu pai estão bem brilhantes nessa foto e não há bem um sorriso no seu rosto, pois ele havia praticamente parado de sorrir como uma das consequências do seu câncer. No caso do meu pai, a doença foi lhe retirando aos poucos aquilo que, em parte, fazia dele a pessoa que conhecíamos. O braço atrás da cabeça é tão magrinho na imagem, reflexo de um corpo já muito debilitado.
Pois bem, não há bem um sorriso, mas uma expressão que pode ser de resignação, ou de alguém que se encontra muito preocupado com o que estava por vir. Claro, eu nunca vou saber exatamente o que a última expressão registrada do meu pai vivo significa realmente, mas me comovo cada vez que olho a imagem. Fico pensando se ele sentia medo, ansiedade, preocupação ou tristeza face à iminência da morte. Será que ele sabia que tinha apenas um pouco mais de 24h de vida? O olhar do meu pai nessa imagem é algo que não se pode esquecer. Há um quê de calma, de tristeza.
Eu guardo esta imagem com muito carinho e vez por outra vou procurá-la. Como eu não vi o meu pai nos seus últimos momentos, e esta imagem foi o resultado da minha última interação com ele, ainda que mediada, eu sinto que é especial. Meu tio me contou depois que, quando eu pedi a foto, ele disse ao meu pai: "É Mércia. Ela quer uma foto. Pode ser?" e ele respondeu "Tranquilo." Penso então que ele olhou para mim. E talvez esse seja o resultado do desespero de quem fica: essa tentativa de encontrar sentido nas coisas que retrospectivamente foram as últimas, marcando despedidas improvisadas, ou talvez transformando restos de memórias em algo permanente.
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