Carta para você
Qual foi a última vez que você escreveu uma carta? Lembra? Para quem? Ou você nunca escreveu uma carta? Você já recebeu uma carta? De quem? Estou falando de carta escrita à mão e não de carta digitada em um computador. Aliás, pensando nisso, será que um texto que se digita em formato de carta pode ser considerado uma? O que é que define o gênero? Será que a carta é um gênero morto? Quem ainda escreve cartas hoje em dia? Afinal, pode-se simplesmente enviar um texto com alguns toques na tela do seu telefone. Não tem tempo? A mensagem vai curta, abreviada. Para concluir, um obr., abs. ou bjs. É a mesma coisa que se escrevesse "obrigada", ou "muito obrigada", ou "um abraço", ou "beijos", ou "um beijo"?
É interessante que hoje em dia as pessoas se importem tanto com a rapidez com que conseguem resolver problemas (aliás, muito do que assim considerado não é realmente problema). Tem-se a impressão de que alguns "artefatos" antigos representavam muito mais do que a mensagem em si. Mas, enfim, voltando aqui para esta carta, que é para você: a carta é um gênero que apresenta alguém (ausente) com uma voz definidora, clara, de quem tem a autoridade sobre aquele relato, mesmo que seja breve.
Mary Shelley começou a escrever Frankenstein (1816) em forma de correspondências quando tinha apenas 18 anos e concluiu o texto quando tinha 19, sem computador e muito menos AI. E há quem ache que a tecnologia atual nos torna tão inteligentes e rápidos. Eu li em um dos muitos textos que têm chegado a mim sobre AI que, hoje em dia, memorizar dados não é mais tão importante para os estudantes da nossa geração, uma vez que qualquer informação é facilmente acessível. Confesso que reagi com um pouco de medo e nostalgia, pensando no que a tecnologia tem feito conosco, nos modos em que tem alterado não só a maneira como nos comunicamos, mas também a forma como o fazemos. E, se você acha que isso não faz nenhuma diferença, pense se já foi capaz de digitar uma mensagem ou outra que, quando não indelicada, tenha sido pelo menos diferente do que talvez você dissesse se estivesse diante da outra pessoa.
Em Frankenstein, um dos tripulantes do navio que encontra o monstro troca cartas com a irmã, algo que parece se perder um pouco na adaptação para o filme de Guillermo del Toro (2025). Eu acho esse arranjo literário brilhante. Lembre-se: a autora era uma jovem de 18-19 anos e, embora talvez fosse considerada "madura" para a época, ainda assim é impressionante que tenha escrito um livro tão envolvente.
Sempre que há livro e adaptação em filme, eu prefiro ler antes de assistir. Eu gosto do processo de imaginar os personagens, os cenários e considero este um excelente exercício. Lendo o texto de Shelley, eu descobri que todas as vezes em que a autora descreve chuva ou uma tempestade... É melhor você ler o livro e descobrir por si mesmo/a. Eu só consegui ver o filme aos poucos, pois algumas cenas são muito gráficas e um pouco assustadoras. Havia de ser: é um filme para uma geração que talvez não escreva ou leia tantas cartas... Assista ao filme também.
"Carta ao Tom 74" é uma canção de Vinícius de Moraes e Toquinho. É tão nostálgica que faz você voltar no tempo, especificamente ao Rio de Janeiro do final da década de 50 ("esse Rio de amor que se perdeu"). Toquinho canta que Tom Jobim ensaiava com Elizete Cardoso as canções de Canção do Amor Demais e que o tempo era feliz. "Ipanema era só felicidade." Não posso contar as vezes em que fui procurar no Google Maps a Rua Nascimento Silva, 107, para ver a janela de onde se podia enxergar "um cantinho de céu e o Redentor", como essa turma de cantores que fazia a Bossa Nova surgir no final da década de 50. Escute a canção, mas lembre-se: certamente você não vai conseguir ouvi-la só uma vez. E dependendo do seu estado emocional, poderá verter uma lágrima ou duas. "Lembra que tempo feliz. Ai, que saudade"...
Uma parte considerável do Novo Testamento também foi escrita em formato epistolar. Paulo era o grande autor de cartas. Leia a primeira carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 13, em que o autor escreve sobre o amor. "O amor nunca falha", ele diz. Eu também gosto muito da carta dele aos Gálatas, sobretudo no capítulo 5, no qual Paulo escreve sobre esta grande contradição que somos todos nós. Uma série de virtudes é contrastada com aquilo que as torna difíceis de serem cultivadas.
E a Carta de Caminha? O escrivão da armada que "descobre" o Brasil, em 1500, escreve uma carta ao Rei Dom Manuel I, descrevendo a chegada à "nova terra" e seus habitantes. A Carta de Caminha é considerada por muitos críticos o primeiro documento da literatura brasileira. Caminha descreve a gente encontrada no Brasil como 'bonitos', 'bem-feitos', 'de bons corpos' e chega até a dizer ao rei que, se 'Sua Majestade assim o desejasse,' certamente os indígenas seriam facilmente convertidos. E por falar em falsas impressões... Mas leia a Carta de Caminha também.
Depois de ler livros e cartas, assistir a um filme e ouvir música, eu acho que você terá tido inspiração suficiente para escrever a sua própria carta. O exercício pode ser tão envolvente que talvez você não pare de escrever cartas e descubra que gosta de fazê-lo. Afinal, de acordo com a carta de Vinícius, "É preciso inventar de novo o amor."
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