Futebol, raça e ignorância
Em 2006, visitando um certo país europeu, eu perguntei ao taxista que me levava ao hotel se a cidade era segura para se caminhar à noite. Ele (que, vale a pena ressaltar, não sabia de onde eu vinha) respondeu que sim e que "o problema" da cidade eram "os imigrantes ilegais brasileiros e os macacos". Sem entender exatamente a última referência, e um tanto chocada, eu perguntei "quem?" É que me custava acreditar que alguém pudesse usar tamanha violência verbal para se referir a outrem, no caso, os imigrantes africanos no país em questão. Também, como brasileira, eu confesso que nunca tinha ouvido aquele tipo de referência em direta aplicação a um indivíduo negro, de modo tão descomprometido e categórico. Claro, todos nós sabemos que, nas esferas de intimidade familiar são muitas as expressões e piadas de extremo mau gosto que marcam a relação que o brasileiro tem com a própria história africana. É que, no caso do Brasil, parece que a opção foi repudiar não a escravidão, mas o escravizado. Mesmo assim, eu me lembro de ter me sentido orgulhosa ao pensar que não ouviria uma tal expressão dirigida a indivíduos negros, assim tão naturalmente, no Brasil. Os recentes episódios de discriminação racial contra jogadores em estádios de futebol parecem provar ingênua a minha crença de então.
Na Europa, sabe-se que o preconceito e a discriminação dirigidos a jogadores negros ocorrem já há um bom tempo (bananas lançadas ao campo, a projeção dos sons que imitam macacos?), e há inúmeras campanhas com o objetivo de eliminar tal violência. (É bom lembrar que executamos muitas ações verbalmente, inclusive ações violentas. A discriminação é uma delas). No Brasil, porém, episódios como os recentemente registrados em São Paulo (Mogi Mirim) são absolutamente chocantes, quando não um tanto inexplicáveis, considerando a longa história que o esporte tem no país, e a tradição de estar conectado à nossa própria herança africana. Há quem diga, inclusive, que a jinga brasileira (o nosso tão famoso "jogo bonito") está mesmo vinculado à nossa herança negra, à presença destes jogadores numa época em que o futebol era um esporte da elite branca. E isso fica em um passado distante, pois quem de nós cresceu com times de futebol que não tivessem membros negros, ou morenos de toda tonalidade?
Entretanto, eu discordo da afirmação de que tais ações revelam que o brasileiro é preconceituoso. Sim, é também, e muito. Na verdade, todos nós somos de algum modo, e em alguma circunstância, culpados por sermos preconceituosos. A atitude de "pré-julgar" é muito mais extensiva do que se pensa. E a discussão sobre os tipos e variações do preconceito podem ser consideradas desde as mais simples — quando não simpatizamos com alguém, é difícil compreendê-lo por fazermos julgamentos antes mesmo de ouvi-lo —, às mais complexas. Considere o caso de uma colega minha, brasileira, branca que foi a uma loja em Belo Horizonte com a mãe que perguntou à vendedora o preço de um objeto, obtendo a seguinte resposta: "não vou nem lhe dizer quanto custa este objeto, porque eu já sei que a senhora não vai poder comprá-lo". Há também as demonstrações preconceituosas mais complexas, relativas a percepções internalizadas sobre minorias (discriminação contra homossexuais, membros de determinadas religiões, pessoas provenientes de alguns países?). Ou, você já leu sobre algumas reações dos brasileiros à presença dos imigrantes haitianos em Brasileia, no Acre? A indignação neste último caso é, por vezes, revelada (abertamente) com expressões incrivelmente violentas e xeno-racistas mesmo.
Mas isso é uma digressão e o ponto é que a discriminação nos estádios de futebol revela, antes de mais nada, uma enorme ignorância. Sim, ignorância da própria história, das próprias tradições, da própria cultura, e da própria condição humana. É inevitável concordar que, no momento, o brasileiro precisa mesmo é de mais educação e de menos futebol. Lembremos que a grande maioria da audiência em uma partida de futebol tem, de um modo ou de outro, o impacto, a "sombra" africana (para usar o termo freyreano), seja no seu sangue, ou na sua cultura, quando não em ambos. "Somos um povo mestiço", afirmava Freyre, e somos mesmo. Alguém nega? Isso é válido mesmo que não tenhamos todos a ancestralidade africana, como a grande maioria parece ter — a despeito dos números oficiais de um censo que, às vezes, mistifica mais que esclarece. Vide também relatório da ONU (1995), de acordo com o qual, o Brasil (pasmem) tem, ou tinha, a segunda maior população de negros depois da Nigéria. E insisto, somos todos mais ou menos africanos no Brasil, na nossa cor, no nosso carnaval, na nossa música, na nossa culinária, nas nossas tradições, na nossa língua, no nosso modo de ser e, sim, no nosso futebol.
Xingar (alguém arrisca a origem da palavra?) um jogador de futebol usando um epíteto racista é uma imperdoável ignorância. É como se tivéssemos regredido, ou, talvez nunca progredido? É desconhecer, ou evitar pensar que, do outro lado, há um indivíduo com sentimentos, que tem o direito de não ser humilhado em qualquer circunstância e, muito mais, publicamente no exercício do seu trabalho. É repudiar a tradição coletiva de um povo que existe hoje graças a essa mancha que foi a escravidão, mas que deu muitos passos para resgatar a sua imensa dívida histórica. É mesmo uma questão de conscientização, de entender que não é, jamais, aceitável discriminar quem quer que seja pela sua cor ou origem.
É obrigação de todos nós, em estádios, em escolas, nas nossas respectivas comunidades, e no seio das nossas próprias famílias eliminar as expressões preconceituosas e racistas, condenando-as fortemente. Nenhum jogador de futebol brasileiro deveria precisar resgatar a história das grandes estrelas do futebol para expressar indignação contra a discriminação sofrida (como fez Arouca). Não devemos tolerar tais atitudes porque existem e existiram heróis populares negros, mas porque, antes e sobretudo, a discriminação racial é um ato de violência.
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