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Futebol, raça e ignorância

Se você gosta de futebol é alienado. Se não gosta é um chato. Se você acha que os protestos são válidos, pode estar exagerando. Se não acha, não sabe do que está falando. Se acha que a Copa do mundo foi/está sendo boa para o Brasil, não tem visão crítica. Se não acha, é crítico demais. Hoje em dia, parece que nunca se pode acertar. Há tantas opiniões tão facilmente acessíveis que, às vezes, parece difícil chegar-se a um consenso fora dos microcosmos que a Internet e as mídias sociais criam. Sem meio termos, tal a polarização das opiniões no Brasil hoje em dia. Dispensando as desculpas, segue aqui o meu texto sobre o futebol e as copas do mundo que eu acompanhei.

A primeira Copa do mundo que eu me recordo ter acompanhado foi a de 1982. Zico foi o herói das copas da minha infância, apesar de ter sido um herói sem títulos. Dizem que a seleção de Zico, Sócrates, Careca, Toninho Cerezo e companhia era ótima, uma das melhores. Mas nunca venceu. Paolo Rossi, Michel Platini, por outro lado, foram os carrascos da minha infância e eu me lembro deles até hoje, da decepção das derrotas das seleções brasileiras. Havia choro, mal estar e uma certa angústia pública generalizada em um país que consome futebol 24h/dia. Sim, é um estereótipo, mas, como todos, tem um fundo de verdade.

À época das primeiras copas que eu me lembro de ter acompanhado, a nossa casa era a única do bairro que possuía um televisor a cores. Meu pai abria as portas que separavam o terraço e a sala, e os vizinhos, em sua maioria meninos, rapazes e homens — entusiastas do futebol, muitos jogadores de times locais que enfrentavam-se no campinho de terra batida, do outro lado do nosso quintal — enchiam a nossa casa. Torcia-se, gritava-se e faziam-se correntes (todos de pé e de mãos dadas) aguardando as cobranças de pênaltis ou os minutos finais de uma partida difícil. Naquela época, ainda vivíamos sob a ditadura militar...

Com o tempo, na década de noventa, deixou de haver essas reuniões espontâneas na nossa casa, pois os televisores foram se tornando cada vez mais acessíveis. Eu me lembro de perguntar ao meu pai o que "acontecia" quando o Brasil se tornava campeão. É que eu tinha uma curiosidade imensa de saber como havia sido a atmosfera no Brasil em 1958, 1962 e 1970, quando o meu pai tinha respectivamente 9, 13 e 21 anos e o Brasil havia ganhado os títulos que o tornavam sempre favorito na minha infância e adolescência. Imagina a época em que ele era criança! Assistiam-se aos jogos nos poucos televisores em preto e branco que os vizinhos privilegiados possuíam. Era o rádio mesmo o grande transmissor da emoção das partidas. Deve ser por isso que o meu pai gosta tanto de acompanhar futebol pelo rádio. É o radinho. Quando nós éramos crianças, eu lembro que esse era o companheiro inseparável do meu pai, quase um outro irmão nosso. Os passeios do domingo à tarde no horto de Dois Irmãos eram feitos com radinho ao ouvido.

Em 1993, o Brasil fazia uma pobre campanha nas eliminatórias para a Copa de 1994. O Brasil perdeu o jogo contra a Bolívia em La Paz por 2 X 0 e precisaria vencer o próximo, ou não se classificaria para a Copa. O jogo seria em Recife. Eu era estudante e ao ouvir sobre o jogo, fui ao Arruda comprar dois ingressos que seriam para eu e meu pai assistirmos ao jogo juntos. Cheguei em casa à noite, depois de um longo dia que envolveu uma longa espera para adquirir os ingressos. Meu pai sorriu ao ver os ingressos, mas não disse nada. O jogo seria no domingo. Quando o dia do jogo chegou, meu pai disse que meu irmão iria comigo. Fomos ao estádio do Arruda juntos e o jogo foi inesquecível. A partida do Brasil contra a Bolívia no Arruda, dizem, foi o começo da campanha do Brasil pelo tetra. Foi o primeiro jogo em que a seleção entrou em campo de mãos dadas. A torcida fez um espetáculo incrível. Faziam-se "olas" e havia um clima generalizado de harmonia entre seleção e torcedor. Dizem que esta foi uma partida histórica. O Brasil venceu por 6 X 0 e se classificou para a Copa, que também ganharia em 1994, tornando-se tetra campeão. Foi o melhor jogo de futebol que eu já vi. O capitão da seleção à época era Ricardo Rocha, um pernambucano, e quando o Brasil voltou campeão dos Estados Unidos, a primeira parada que o avião da seleção fez foi em Recife.

A evolução do futebol no Brasil parece caminhar passo a passo com o que ocorre na esfera social e política. No ano passado, o clima de protesto fora dos estádios se refletia, ou se transformava, em uma expressão nacionalista dentro dos estádios, quando, por exemplo, pela primeira vez os torcedores brasileiros ignoraram o final da versão curta do hino nacional da Fifa e cantaram juntos com a seleção. Não se pode, porém, apontar exatamente a razão para essa expressão, porque uma olhada no público das partidas da Copa das Confederações, como muitos comentaram, revelava um público diferente daquele que se encontra ao se caminhar nas ruas no Brasil, ou seja, muito mais privilegiado. Isso é curioso, porque, apesar de o futebol ser um esporte apreciado por todos, politicamente as divisões são também marcadas por classe e nível educacional, claro. O que quero dizer é que, quem cantava o hino nacional dentro do estádio poderia ter inclinações políticas completamente diferentes de quem promovia quebra-quebra e gritava "não vai ter Copa" fora. Por outro lado, poder-se-ia afirmar também que, quando povo e seleção cantaram o hino juntos houve uma certa quebra de apatia.

Desde então, já se viram outros espetáculos bem pobres no Brasil, dos quais a violência é o mais marcante. O mesmo Arruda que foi palco histórico da vitória da seleção em 1993 foi, neste ano, palco de um dos episódios mais indescritivelmente grotescos no qual eu acho difícil pensar por muito tempo e que envolve arremesso de privada, morte e pura barbárie. É o futebol, pano de fundo das contradições. Veja-se, a mesma torcida que incentivava o Brasil à vitória no primeiro jogo, promovia uma das demonstrações mais feias ao vaiar a presidente. Dilma — que riu por último — saiu dignificada, recebeu pedidos de desculpa e ainda disse (estilo mãe, dando um tapinha na mão do filho) que o povo brasileiro não era mal-educado. Mas afinal, quem foi que teve a terrível ideia de lançar a um chefe de estado, à primeira mulher presidente do Brasil, mãe e avó, as horríveis expressões ouvidas no estádio no que deveria ter sido um belo espetáculo de abertura do evento? Eu li em algum jornal que os representantes de outros países perguntaram o que a torcida dizia e, ao descobrirem, ficaram desconcertados. Claro. Que espetáculo tão pobre, à parte dos 3 X 1 contra a Croácia. Não discordo de que haja motivos para reclamações, mas os veículos para se fazê-lo podem ser melhor pensados, evitando-se a síndrome de gangue que parece acometer muitos em circunstâncias como uma partida de futebol.

Agora, perguntaram-me, e eu repito aqui a pergunta, em que posição, ou em que time, joga (ou jogou) a Gisele Bündchen? Sim, porque em um país que tem "Rei do futebol", capitão da seleção que foi pentacampeã, além da óbvia escolha, a presidente, por que é que uma modelo vai entregar a taça do evento mais importante do esporte? Ou será que a única pessoa que pode aparecer sem risco de ser vaiada nesse ambiente de protesto e polarização é uma modelo?

Mas a Copa de 1994...

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