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Rolezinhos, identidade e espaço público

Eu ouvi a expressão pela primeira vez há quase dez anos, quando coletava material para desenvolver a minha pesquisa de doutorado em linguística. Eu estava interessada em analisar narrativas orais (estórias) sobre episódios de discriminação racial no Brasil. A polêmica me interessava e ainda me interessa.

O meu informante era uma rapaz negro, alto, de porte físico atlético, que cresceu no mesmo bairro que eu e que havia se tornado jogador de futebol para um time das divisões menores. Quando comentei sobre o meu interesse neste tipo de estórias, incentivaram-me a conversar com este rapaz, que eu aqui vou chamar de Édson. Ele me contou que em um dia de folga do treinamento, com um colega também negro, resolveu ir para a cidade (e aqui a expressão) "dar um rolé".

Ao entrar em uma boutique, pois aproximava-se o dia dos namorados, os dois pediram à vendedora que os ajudasse a escolher presentes para as namoradas. A moça, hesitante, respondeu-lhes as perguntas, mas ao saírem os dois constataram que a interação não havia sido tão simpática quanto pareceu a princípio. Pouco tempo depois de saírem da loja, quando comiam em uma lanchonete, os dois rapazes foram abordados por policiais que perguntaram se eles haviam estado na boutique, concluindo "então foram vocês que tentaram assaltar a loja". O resultado é que, detidos, os dois rapazes foram levados de volta à boutique, onde confrontaram-se as opiniões e, depois de muito embaraço, eles foram soltos. A situação resultou também em um processo legal, cujo resultado foi favorável aos dois rapazes.

Esta semana eu li um artigo de uma jornalista da Folha de São Paulo para o New York Times no qual ela comentava sobre o "rolezinho" no shopping center de Guarulhos. Descrevendo a situação, ela começava com o depoimento de dois rapazes que, sendo interrogados pela polícia quando do rolezinho, afirmavam serem primos de um jogador do Bragantino. Imediatamente, a narrativa me reportou à minha pesquisa, dadas as similaridades das circunstâncias.

Goffman escreveu em Estigma (1963) que, para guiar o nosso lidar com os outros, nós utilizamos o que está imediatamente disponível, a aparência, os trajes, os modos. Nós "lemos" o outro com base naquilo que aprendemos por meio da nossa socialização em um dado local e época. Infelizmente, por vezes fazemos leituras completamente errôneas dos outros (e outros de nós), o que resulta em muito estereótipo, em embaraço, e em situações discriminatórias. Veja-se, dizer que se é jogador de futebol ou que o primo é jogador do Bragantino é um apelo a esse conhecimento de mundo, mas com um objetivo diferente, a discriminação positiva.

Os atuais aglomerados de jovens, em sua maioria pobres, nos shopping centers estão repletos de referências aos modelos de interação social vigentes no Brasil por muito tempo. Principalmente depois dos protestos (e antes dos eventos esportivos de alcance mundial que o Brasil sediará), apresentar-se como grupo em um espaço marcadamente dominado pela classe consumidora, detentora de poder aquisitivo, é considerado subversivo (e é, não? "Vamos invadir o seu shopping"? É o pesadelo da classe média).

As redes sociais disponibilizaram uma ferramenta potente, que viabiliza os encontros súbitos e a mobilização de um grande número de pessoas em pouco tempo. Em muitos casos, uma das poucas características que estes indivíduos compartilham é terem lido a mesma página do Facebook – é verdade, pode-se assumir que isso lá não é atributo tão desprezível. A presidente faz reuniões, a polícia reprime, as lojas fecham as portas e gera-se uma inquietação e muita curiosidade. Se serve de pista, não sei exatamente há quanto tempo a Filadélfia vivenciou as chamadas "flash mobs" (literalmente "multidões-relâmpago"). Tratava-se de encontros súbitos de jovens, muito semelhantes aos que se veem agora com os chamados rolezinhos em São Paulo. As "flash mobs" ocorriam nas ruas do centro da cidade, onde há um grande número de lojas e de restaurantes e bares. O prefeito foi à televisão, emitiu ordem de toque de recolher e dirigiu-se aos pais com uma mensagem para que mantivessem seus adolescentes em casa à noite, quando os episódios de "flash mobs" ocorriam. Faz tempo que não ouço falar destes eventos na cidade. Vai ver foi mais uma dessas modas que a internet ajuda a criar, que assustam pela novidade, e por serem mesmo um modelo novo de organização social. As causas são também um tanto inexplicáveis e os rolezinhos mais parecem uma tentativa de testar os limites, as novas possibilidades, a capacidade de mobilização.

Uma coisa é certa, em um país marcado por tantos contrastes, e de ordem tão séria — os ricos, os pobres, a zona sul, a zona norte, os que têm, os que não têm — estes episódios também testam a nossa habilidade de "ler" os outros. No fundo, queremos ser dignos e dignificantes, mas se você visse um jovem da classe baixa na frente de uma loja elegante, ou como eu, um rapaz negro pulando a grade do terraço para entrar no apartamento, o que pensaria?

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