Les yeux sans visage
Eu não sei bem por que, mas me peguei, sem mais nem menos, obcecada pela canção "Eyes without a face", de Billy Idol. Não sei se foi porque, assistindo, tardiamente, aos episódios de Stranger Things, numa tentativa de me atualizar no discurso de entretenimento televisivo, eu tenha ouvido uma canção que me remeteu imediatamente a um tempo distante.
Fui procurar a canção e não paro de ouvi-la desde então. Depois, ouvi uma entrevista com o cantor na NPR, falando sobre sua biografia recém-lançada. A música tocava ao fundo, no final da entrevista. Ele falou sobre como começou a carreira e sobre a relação conturbada com o pai. Daí, eu fui ouvir a canção novamente.
A linha "eyes without a face, you've got no human grace" me capturou imediatamente. Fui procurar a letra da canção e descobri que ele estava se referindo a um momento da sua vida, envolvendo perdas afetivas, inclusive a sua infidelidade. Isso me pareceu um exemplo do que, em inglês, se chama de "serendipity", palavrinha difícil de traduzir para o português. Talvez seja um caso parecido com a nossa "saudade", que quem fala português gosta de acreditar tratar-se de uma palavra exclusiva do seu idioma. Enfim, busquei e descobri que uma boa forma de traduzir "serendipity" é "acaso feliz."
A canção de Billy Idol, que eu ainda não parei de ouvir e que, quanto mais ouço, parece fazer mais sentido na minha vida, como linhas que eu gostaria de dizer a certas pessoas, trata de um momento difícil, como o que eu atravesso. Talvez o acaso aqui não seja exatamente feliz, mas a coincidência de como a canção se encaixa no meu momento atual, sem que eu me desse conta até mais tarde, foi um tanto inusitada. Idol canta:
"It's easy to deceive / It's easy to tease / But hard to get release"
E penso em quão bem essas linhas traduzem relacionamentos frágeis, conexões medíocres, muitas das quais são tornadas possíveis pelas novas formas de comunicação. É fácil manter contato, é fácil enganar, é fácil brincar com as pessoas e enlaçar os desavisados em uma teia de mentiras, servindo aos propósitos mais banais e descartáveis. Isso tudo sem qualquer senso de responsabilidade pelos outros. Não quero mais falar com uma pessoa? Simplesmente sumo (dou ghosting). O que os olhos não veem, o coração não sente, não é? Pelo menos não o de quem desmancha conexões, ignora, atrasa ou evita resposta, tentando fazer o outro compreender que não é querido, apreciado, ou no mínimo respeitado. Dessa forma, torna-se ainda mais difícil soltar-se, desvencilhar-se, to get release.
Há quem justifique esse tipo de comportamento por achar que é melhor assim, sair de fininho e em silêncio, do que ter uma conversa clara e madura sobre sentimentos (sim!) ou a falta deles. É muito melhor dignificar o outro com uma conversa aberta e franca do que causar males emocionais duradouros, tratando as pessoas como se não tivessem a menor importância. Para muitos, o que torna o ghosting tão cruel é a ausência de respostas definidas, que identifiquem para a pessoa que se vê ignorada as razões para isso. Mas, hoje em dia, isso não significa nada. As mídias sociais estão repletas de conselhos sobre como lidar com a ausência covarde e sem explicação dos canalhas que se multiplicam por aí a uma velocidade surpreendente e que a Internet e seus muitos canais têm tornado disponíveis. Sinceramente, a essas alturas, quem nunca encontrou um canalha?
Voltando para a canção do Billy Idol, eu acho outra linha poderosa e que talvez possa ser aplicável a esse contexto de indiferença, crueldade generalizada e falta de responsabilidade pelos sentimentos dos outros. A canção diz:
"Got no human grace / You're eyes without a face"
E eu concordo que tratar os outros sem respeito revela mesmo uma falta de humanidade, de tato, de graça. E não é verdade que muitos têm se tornado olhos sem rosto — presentes, mas incapazes de realmente ver o outro?
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