Na fila de embarque, em Paris
Hoje, quando eu e minha filha estávamos aguardando para embarcar em um voo, retornando à Filadélfia, uma senhora que estava atrás de mim me perguntou qual era o número do meu grupo de embarque. Eu respondi que era o quatro e ela voltou a perguntar "quatro prioritário?" Eu ainda não parei de pensar nisso porque, pelo que eu sei, não havia outro grupo quatro neste voo e que não seja prioritário. Na verdade, e acionando o meu conhecimento da pragmática e das máximas conversacionais, há um pouco mais implícito na pergunta dessa mulher. Veja-se o seguinte, por que uma pessoa se daria ao trabalho de perguntar a uma outra qual é o seu grupo de embarque? Além disso, por que ela ainda perguntou, depois de eu ter respondido se tratava-se mesmo do grupo prioritário? A mulher era americana e branca. Eu sou brasileira e morena. A minha nacionalidade talvez não importe nesta situação, mas a cor da minha pele talvez sim. Eu fiquei pensando que uma boa resposta seria se há outro grupo quatro, mas eu simplesmente confirmei e ela, enfaticamente (e sorrindo efusivamente) afirmou que estávamos no mesmo grupo.
Essa experiência foi interessante porque eu fui a Paris para apresentar trabalho em uma conferência (a da LASA) e realmente não sabia o que esperar. Fala-se tanto que os franceses são muito impacientes, grosseiros e intolerantes, mas eu não senti nada disso. Arrisquei falar o pouco (intermediário) francês que sei e fui bem recebida. Achei que todos me acolheram bem e apreciaram o esforço que eu estava fazendo para me comunicar no idioma local. Foi só essa senhora do país mais esclarecido do mundo que resolveu me perguntar se eu estava mesmo no meu lugar.
Isso é interessante também porque quem discrimina está reagindo a algo que lhe parece fora do lugar. Já que eu tenho escrito tanto sobre o meu pai aqui, agora estou me recordando do dia em que ele me acompanhou até a Escola Técnica Federal de Pernambuco, a antiga ETFPE, para me ajudar a fazer a matrícula, depois de eu ter sido aprovada em um teste rigorosíssimo para o curso de eletrotécnica. A ETFPE era também um desses lugares de tamanha contradição, pois este tipo de instituição, na verdade, deveria ser voltado à formação de jovens das camadas menos privilegiadas. Eu acho que eu era membro deste grupo. Entretanto, o teste era tão competitivo que quem acabava se qualificando eram os jovens filhos da elite profissional, da classe média (quando não alta) de Recife. Mas, voltando ao meu pai, no dia da matrícula. Meu pai estava comigo, em uma fila longuíssima e eu me lembro que ele estava segurando uma das colunas nesse corredor em que estávamos esperando. Uma mulher passou e dirigindo-se ao meu pai, perguntou, "o Senhor trabalha na escola ou é pai de aluno?" Eu nunca pensei muito nisso, mas me lembro que meu pai pausou e respondeu, sério: "Não, eu sou pai de aluno."
Nós nunca falamos sobre isso, mas agora eu fico pensando nas cargas semânticas desse tipo de interação. Se pensarmos bem, foi bem parecido à interpelação da americana branca, me perguntando se eu estava no meu lugar mesmo, ou se estava ocupando um lugar que a ela pertencia. Com o meu pai, por que a funcionária da escola perguntou se meu ele era pai de aluno ou funcionário? Se ele fosse trabalhador, ela teria feito o quê? Teria mandado o meu pai de volta para o trabalho? Isso pode até não ser, mas assemelha-se a uma dessas tentativas de pôr as pessoas "no seu lugar" quando a realidade com que se confronta parece estar sendo sabotada.
Uma vez, uma mulher me contou que um rapaz mais jovem, tentando impressioná-la com imagens íntimas, e depois de receber um não, perguntou-lhe, "você não se sente lisonjeada?" Ao que ela respondeu, "não". A mulher me contou que o tal rapaz parece ter ficado com o ego bem ferido, porque depois recusou-se a falar com ela. Neste episódio, há uma carga semântica implícita também. Afinal, por que esse homem assumiria que a mulher se sentiria lisonjeada? Seria porque ele era mais jovem e a implicação é a de que ela, mais velha, deveria se sentir muito feliz e orgulhosa de ver o que não havia solicitado? Ou seria porque ele, formado em certas expectativas de gênero da sua geração, assumia que tinha mais "valor" no mercado de relações amorosas passageiras, também típico de sua geração, e que a recusa dela estava também "fora de lugar"?
Esse tipo de situação é, na verdade, uma forma de microagressão. São aquelas situações do dia a dia que podem não parecer tão sérias, mas que têm o potencial de fazer mal, de causar desconforto, de fazer as pessoas que recebem a pergunta questionar sua posição, refletir na sua aparência, na impressão que causam, no seu papel social. Há um grau de frieza e de indelicadeza nessas perguntas que é ainda mais problemático por sua sutileza.
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